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Desde: 08/09/2003      Publicadas: 52      Atualização: 11/10/2005

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 ANARQUIA!

  05/07/2004
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Anarquismo

Anarquismo: movimento que luta por uma sociedade onde ninguém tenha poder sobre ninguém. Também podem ser chamados de acratas, defensores da Acracia, do grego: an (sem) e kratos (governo). Os acratas, ou anarquistas, querem uma sociedade em que ninguém governe ninguém. Pela ênfase que dão à liberdade e à negação de qualquer autoridade, são também conhecidos como libertários.


Anarquismo = Organização sem Autoridade



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AUTONOMIA

Esta é a condição indispensável para obter-se a liberdade individual/coletiva. Significa o respeito às decisões, vontades, e opiniões do indivíduo em relação ao grupo e vice-versa. Por exemplo, caso um grupo decida em prol de determinada ação, os membros discordantes não ficam obrigados a participar da mesma. Para isso não devem haver relações de dependência que impeçam as pessoas de se posicionarem livremente.

APOIO MÚTUO

É a ajuda entre seres de uma organização social onde as partes interagem, auxiliando-se e fortalecendo-se. Tal prática não permite disputas, que são fundamentadas no principio irracional de superioridade entre seres, sendo destrutivas para o convívio humano. Nossa proposta é somar forças para alcançar uma melhor qualidade de vida para todos.


AUTOGESTÃO

Autogestão é por princípio, a comunidade cuidando diretamente, de seus próprios deveres e interesses. Para que ela aconteça terá de haver ampla liberdade de organização sem leis cerceantes e hierarquias. Por este simples fatos os partidos e legisladores tornam-se desnecessários. Afinal se as pessoas tomam para si as responsabilidades de gerenciamento de suas vidas, os representantes profissionais e demais poderes são completamente inúteis.


INTERNACIONALISMO

Não deveriam existir fronteiras. Não deveriam existir nacionalidades. Patriotismo é um sentimento mesquinho e egoísta que só faz acontecer guerras inúteis e acirrar a raiva entre os povos. A luta pela liberdade passa pela derrubada do capital, que explora e oprime em todo o globo. Ao invés do estado nação, defendemos a autodeterminação dos povos. Somos internacionalistas pois nossa ação revolucionária acontece em todos os lugares do planeta.


ANTIMILITARISMO

Dentro da instituição militar impera o autoritarismo a partir de um complexo esquema de hierarquia de poder. Qualquer tipo de autoritarismo é inválido ! Por que um é melhor que o outro ? Porque é mais velho ? Porque tem mais medalhas no peito ? Todos são iguais! Uns podem deter mais experiência, pois então que a passe para os outros! O respeito virá naturalmente! Criar um sistema hierárquico por via de medalhas e impô-lo a todos é artificial! Abaixo o Autoritarismo!


AÇÃO DIRETA

A ação direta é o princípio onde você faz e decide diretamente tudo que lhe diz respeito, em oposição a idéia de representação. O indivíduo por ser único é impossível de ser representado. Quando os movimentos sociais passam a agir e não somente reagir ao sistema, pacífica ou violentamente se faz chamar de ação direta, a maturidade de uma organização, a essência da atuação libertária e a única maneira de trilhar um caminho contínuo para a revolução social.


AUTODEFESA

Um princípio libertário que propõe a defesa do indivíduo e/ou coletivo, para garantir sua sobrevivência contra as forças opressoras da reação. Temos de nos defender do sistema e derrubá-lo, a liberdade não é negociada, nem barganhada, mas sim conquistada.

Não se pode "confiar na polícia" e muito menos fazer-nos de vítimas indefesas do sistema. A característica da luta ácrata é a ética e dignidade, "é melhor morrer de pé do que viver de joelhos"; a autodefesa acompanha toda a atuação anarquista.


VIVER A VIDA!

Fazer a sua parte não é encarar o mundo sob uma visão pessimista. Mesmo sabendo que o mundo é cruel, temos de saber que não podemos mudá-lo de uma hora para a outra. Por isso, antes de desistir, desacreditar-se, dar um tiro na cabeça ou tomar qualquer outra atitude assassina-suicida, é necessário encarar a realidade, sabendo que, com pequenas atitudes e esforços, conseguimos mudar a cena.


INDIVIDUALISMO

Individualismo não é, como a maioria faz crer, uma forma de egoísmo, e sim uma valorização do indivíduo, do individual. Um individualista é único, incopiável, livre e incensurável. "Até onde começa a liberdade do próximo." Todos somo únicos. Até o mais alienado dos humanos tem uma qualidade, uma peculiaridade a mais ou a menos pelo menos. Tais qualidades não significam que há melhores ou piores, e sim que somos todos diferentes, únicos.

Massificar, exigir de todos o mesmo comportamento e rendimento, é um atentado à vida, tão vil quanto julgar-se individualista pelo cruel ato de pensar no seu próprio umbigo apenas, mesmo que, para isso, tenha de atropelar, pisar, esmagar e ignorar aos demais.


APARTIDARISMO

Eleições criam ilusões e desviam energias da luta direta contra o estado e o capital, deixando desarmados os trabalhadores. Em 1970 os Chilenos acreditaram que se acabaria com o capitalismo elegendo um presidente socialista, em 1973 os militares rasgaram a constituição e instalaram a sanguinolenta ditadura de Pinochet. Em 1964, por muito menos os militares brasileiros rasgaram a constituição e apearam Jango do poder. Portanto não será elegendo um operário, um democrata ou um socialista que sairemos desse pesadelo.

Aqui e agora, no seu bairro, no seu local de trabalho, na sua família, na sua escola. Lutando junto aos seus companheiros pela liberdade e para romper as estruturas autoritárias da sociedade, devemos lutar para cotidianizar a revolução e revolucionar o cotidiano.

VOTE NULO, NÃO SUSTENTE PARASITAS!



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Definição de Anarquia

Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente "sem governo", isto é, o estado de um povo sem uma autoridade constituida. Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma classe de pensadores, ou se tonasse a meta de um movimento, que hoje é um dos fatores mais importantes do atual conflito social, a palavra "anarquia" foi usada universalmente para designar desordem e confusão. Ainda hoje, é adotada neste sentido pelos ignorantes e pelos adversários interessados em distorcer a verdade. Não vamos entrar em discussões filológicas, porque a questão é histórica e não filológica. A interpretação usual da palavra não exprime o verdadeiro significado etimológico, mas deriva dele. Tal interpretação se deve ao preconceito de que o governo é uma necessidade na organização da vi da social.

O homem, como todos os seres vivos, se adapta às condições em que vive e transmite , através de herança cultural, seus hábitos adquiridos. Portanto, por nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é, para obter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e o capital. Passou a acreditar que seu senhor era aquele que lhe dava pão, e perguntava ingenuamente como viveria se não tivesse um patrão. Da mesma forma, um homem cujos membros foram atados desde o nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a estas ataduras sua habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia muscular de seus membros. Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações inventadas, para persuadir o homem com membros atados, que se libertar suas pernas ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras furiosamente e consideraria todos que tentassem tira-las inimigos.

Portanto, se considerarmos que o governo é necessário e que sem o governo haveria desordem e confusão, é natural e lógico, que a anarquia, que significa ausência de governo, também signifique ausência de ordem. Existem fatos paralelos na história da palavra. Em épocas e países onde se considerava o governo de um homem (monarquia) necessário, a palavra "república" (governo de muitos) era usada exatamente como "anarquia", implicando desordem e confusão. Traços deste significado ainda são encontrados na linguagem popular de quase todos os países. Quando esta opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra "anarquia", justamente por significar "sem governo" será o mesmo que dizer "ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos, liberdade total com solidariedade total".

Portanto, estão errados aqueles que dizem que os anarquistas escolheram mal o nome, por ser este mal compreendido pelas massas e levar a uma falsa interpretação. O erro vem disto e não da palavra. A dificuldade que os anarquistas encontram para difundir suas idéias não depende do nome que deram a si mesmos. Depende do fato de que suas concepções se chocam com os preconceitos que as pessoas têm sobre as funções do governo, ou o "Estado" como é chamado.


Por Errico Malatesta (em anarquia, 1907)


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Principais Idéias Anarquistas
Anarquismo é geralmente identificado como caos ou "bagunça", por ser uma doutrina política que defende a abolição de qualquer tipo de governo formal; mas, na verdade não é bem isso. Etimologicamente esta palavra é formada pelo sufixo de archon, que em grego significa governante, e an, que significa sem. Ou seja, anarquismo significa ao pé da letra "semgovernante". A principal idéia que rege o anarquismo é de que o governo é totalmente desnecessário, violento e nocivo, tendo em vista que se toda a população pode, voluntariamente, se organizar e sobreviver em paz e harmonia.
A proposta dos anarquistas é contraditória ao sistema capitalista mas, não deve ser confundida com o individualismo pois, como já foi dito, está fundamentada na cooperação e aceitação da realidade por parte da comunidade. De acordo com os principais pensadores anarquistas, o homem é um ser que por natureza é capaz de viver em paz com seus semelhantes mas órgãos governamentais acabam inibindo esta tendência humana de cooperar com o resto da sociedade.
Com isso, podemos perceber que uma sociedade anarquista não é algo totalmente descontrolado como todos pensam, muito pelo contrário, esta é uma sociedade bem estruturada e organizada, só que esta organização está baseada neste instinto natural do homem. Ou seja, ela depende da autodisciplina e cooperação voluntária, e não uma decisão hierárquica.
A sociedade cria uma construção artificial, na qual a ordem é imposta de cima para baixo, como em uma pirâmide. Já no anarquismo a sociedade não seria uma estrutura e sim um organismo vivo que cresce em função da natureza.
Por isso, os anarquistas abominam a formação de qualquer partido político pois estes acabam com a espontaneidade de ação, burocratizando-se e exercendo alguma forma de poder sobre o resto da população. Eles também temem as estruturas teóricas na medida em que estas podem se tornar autoritárias ou "sentenciosas".
Daí o anarquismo ser conhecido como algo vivo, e não uma simples doutrina, a ausência de poder e controle na mão de alguns torna o movimento anarquista algo frágil e flexível. A crítica ao poder do Estado leva à tentativa de inverter a pirâmide hierárquica de poder, o que formaria um sociedade descentralizada que procura estabelecer um relação de forma mais direta possível. A responsabilidade começa nos núcleos vitais de civilização, onde também são tomadas as decisões, local de trabalho, bairros, etc.. Quando estas decisões não são possíveis de ser tomadas, formam-se federações. O importante, porém, é manter a participação e aprovação de todas as pessoas envolvidas.
Os anarquistas criticam a forma de governar do parlamentarismo pois a representação corre o risco de entregar o poder à um homem inescrupuloso e hábil, que use as paixões do povo, para sua auto promoção. Quando as decisões abrangem áreas mais amplas são convocadas assembléias, com intuito de nomear delegados que estão sujeitos à revogação de seus cargos.
Apesar de o anarquismo ser diferente na Europa e Brasil, ele tinha uma mensagem comum nos dois: a liberdade e a igualdade só serão conquistadas com o fim do capitalismo e do Estado que o defende. O anarquismo considerava, assim como o socialismo, que a propriedade privada era o principal problema da sociedade, argumentando que os "recursos naturais da terra" pertencem à todos, ou seja, sua apropriação para uso pessoal é roubo. O sistema capitalista causou o empobrecimento e exploração de muitos para a riqueza e avareza de poucos. Os fortes obrigaram os fracos à servir e em uma luta incessante pela riqueza as diversas nações entraram em guerra. Assim, claramente, podemos perceber que o capitalismo foi criado para atender à necessidade de uma classe dominadora e exploradora e não ao resto da sociedade.
A socialização da propriedade, unicamente, não pode mudar nada, pois acabar com a propriedade privada sem acabar com o governo burocrático só faria com que se criasse uma classe privilegiada em sua própria preservação. Todas as formas de governo acabam usando de determinada doutrina para "roubar" a liberdade do homem e satisfazer a "casta governante". Todas, usam da repressão policial ou militar para impor a sua vontade diante do povo, e, as leis, de um modo geral, são decretadas pelos poderosos para legitimar sua tirania. Na sociedade capitalista quando os pobres protestam contra os ricos, a polícia e o exército entram em ação; mais tarde estes pobres reprimidos têm de pagar as despesas destes dois órgãos e ainda do judiciário, que servem para dominar os trabalhadores.
Os anarquistas insistem que os meios de propaganda e educação recebem o apoio e o controle do Estado, para perpetuar os objetivos deste. A religião, é uma importantíssima ferramenta para os burgueses pois pacífica o trabalhador, levando- o a aceitar a miséria sem protestos, induzindo-o a desistir de sua liberdade e aceitar a dominação dos que "roubam" o fruto de seu trabalho. As escolas são usadas para ensinar aos homens a obediência às instituições já formadas; homens são treinados para adorar o seu país, dispondo- se sempre a dar sua vida pelos interesses de sus exploradores.
Então, somente eliminando o Estado e a propriedade privada é que o homem será totalmente livre, de suas carências, dominação, para desenvolver seu potencial ao máximo. Em uma sociedade anarquista as leis e a violência serão desnecessárias pois os homens livres serão capazes de cooperar para o bem da humanidade. Nessa sociedade, a produção seria feita de acordo com as necessidades da população e não para o enriquecimento de alguns poucos; com o fim das propriedades privadas não haveriam mais assaltos, ninguém iria cobiçar o que é dos outros (pois nada seria dos outros); acabaria a exploração das mulheres, cada um poderia amar à quem quisesse, independentemente de sua classe social e grau de riqueza, sem ser necessário o casamento; não existiria mais a violência e nem as guerras, ninguém mais lutaria por riquezas e não existiria mais o nacionalismo, racismo, carência e competição.
Se há anarquistas que praticam atentados políticos, não é em função desta sua posição, mas sim uma resposta aos abusos, perseguições e à opressão sofrida por eles. Não são, portanto, atos anarquistas e sim de revolta inevitável por parte dos explorados contra a violência dos altos escalões.


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Movimentos Anarquistas
Esta doutrina utópica se organizou primeiro na Rússia, durante a segunda metade do século XIX. No final desse século, o anarquismo na França, Itália, Espanha e Estados Unidos, associou-se ao sindicalismo formando o anarco-sindicalismo.
Mas, os movimentos sociais dos democratas e comunistas, partidários das idéias Marxistas, derrotaram a proposta revolucionária anarquista internacional. Somente na Espanha ele continuou com uma grande força mas foi destruído em 1936, na guerra civil.
O mais brilhante dos anarquistas foi indiscutivelmente Bakunin, um filho de ricos aristocratas russos. Tornou-se revolucionário apartir das influências de Proudhon; participou das rebeliões parisienses e praguenses, em 1848 e 1849 respectivamente. Ele foi preso por vários anos e exilado na Sibéria. Quando retornou, em 1870, entrou nas revoltas de Lyon e Bolonha. Fez muitas críticas à Marx, tendo sido expulso da Primeira Internacional em 1872; com vários de seus companheiros ele fundou a Internacional Saint-Imier.
Além de Bakunin, Proudhon (seu mestre) e Kropotrin, o anarquismo conta com artistas, jornalistas e intelectuais em geral: como Oscar Wilde, George Orwell, Picasso, Emma Goldman, Malatesta e George Woodcock.
Em 1879, após a morte de Bakunin, que era chamado de gênio da destruição, a propaganda anarquista feita por Kropotkine, Reclus, Malatesta e outros, atravessou um novo período de efervescência revolucionaria, pelo menos na parte ativa pensante do proletariado francês.
O anarquismo, apesar da lei repressiva de 1872, que fez muitas vítimas, alastrava-se de uma maneira espantosa, através da palavra, imprensa e do fato, adquirindo o partido revolucionário, vastas proporções, como ficou visto no conselho de Marselha, onde os operários franceses, em um número enorme, se declaravam pelo anarquismo. Em Lyon, como em outros grandes centros industriais, as idéias libertárias desenvolveram-se largamente, tendo sido, no pequeno período de três meses, publicados 16 periódicos revolucionários e um grande número de folhas soltas.
Essas propagandas, não poderiam deixar de produzir os seus frutos. Em agosto de 1872 Montecaules- Mines, era um teatro de grandes tumultos revolucionários e a igreja de Bois-du-Verne foi incendiada por meio de dinamites. Em 21 de outubro, uma poderosa bomba explodia no teatro de Bollecour, sendo Civoet, apontado erradamente como autor desse atentado.
O governo assistia amedrontado o processo rápido das idéias libertárias, assim procurando um pretexto para "sufocar" o movimento que estava tendo os seus triunfos. Em 1883, 66 indivíduos, entre os quais se achava Pedro Kropotkine, preso em Thonon, eram levados ao tribunal de Lyon, acusados de pertencerem a uma organização internacional de "malfeitores". O juri era composto por burgueses covardes e infames, sendo dos 66 acusados 47 condenados a vários anos de prisão, outros expulsos, etc. Este processos foi um dos mais importantes episódio da história revolucionária.
Em fins do século XIX o movimento sindical fortaleceu intensamente o anarquismo, resultando no movimento chamado anarco-sindicalismo, que enfatizava que os sindicatos deveriam não só brigar por salários mas também se tornar agentes de mudanças sociais. Foi na Espanha que este movimento se tornou mais expressivo, até quando não pôde mais resistir às investidas do exército do ditador Franco. Na Itália e Alemanha, o anarquismo foi instinto pelos movimentos fascista e nazista.
O anarquismo ressurgiu depois da Segunda Guerra Mundial e se reativou na década de 60 com o ativismo de jovens europeus e americanos, o que resultou no movimento estudantil de 1968, em Paris.



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O ANARQUISMO SOCIAL E O SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO
Em finais do século XIX o socialismo e a sua vertente anarquista haviam já ganho a simpatia de inúmeros intelectuais e, principalmente, dos militantes operários mais combativos. Estavam criadas as condições para que se constituíssem amplos movimentos sociais capazes de abalar o capitalismo e projetar uma sociedade distinta onde não tivesse mais lugar a exploração e a dominação.
Apesar das divergências teóricas e práticas, as várias correntes socialistas, principalmente a social-democracia herdeira do marxismo e o anarquismo partilhavam ainda um otimismo sem limites e uma visão comum de uma sociedade futura, que chamavam de comunista, onde o ser humano poderia atingir a sua perfeição e liberdade máxima. Que esta visão de comunismo tinha uma dose de ingenuidade, ou até de religiosidade, hoje muitos parecem concordar, no entanto, para os trabalhadores do século XIX, não só parecia que o capitalismo estava entrando em colapso ou, parafraseando os versos da Internacional, na sua "luta final", como o crescimento do movimento operário e da sua radicalidade pareciam permitir concluir que era possível virar o mundo, ou pelo menos, algumas sociedades, de ponta a cabeça. A Revolução Francesa de 1789 e a Comuna de Paris de 1891, estavam ainda na memória de todos, sendo a comprovação prática de que o povo, quando saía às ruas, era capaz de fazer derrocar qualquer poder. Talvez por essa razão o socialismo até aos anos 20, será um socialismo eclético que, apesar das polêmicas e conflitos, permitia ainda a colaboração e cooperação entre as várias correntes, principalmente no mundo do trabalho em torno de objetivos de luta anti-capitalista.
Em 1889, os sociais-democratas, herdeiros de Marx, organizaram a II Internacional, que tinha por base partidos políticos que nasceram com o objetivo de representar os trabalhadores e lutar por ampliar os direitos das classes marginalizadas pela sociedade capitalista. Mas, aos poucos, esses partidos viam-se também eles corroídos pela burocratização das suas estruturas partidárias e pela lógica de integração da contestação social ao sistema que pretendiam, inicialmente, transformar radicalmente. Se isso confirmava ou não os prognósticos dos libertários sobre a forma partidária de organização, podia ser uma dúvida razoável, mas que tornava claro o papel institucionalizador da luta eleitoral, parecia não restar dúvidas. Mesmo que, passado mais de um século, os descendentes sociais-democratas, continuem vivendo o mesmo drama de seus antepassados do século XIX: sendo socialistas quando na oposição tornam-se os melhores administradores do sistema capitalista, quando no poder.
É em conseqüência dessas contradições da social-democracia, que irão ocorrer muitos dos debates no seio dos socialistas, mas principalmente entre os marxistas. Desses debates viria a resultar uma concepção revolucionária de marxismo delineada por Lenin, oposta ao jogo da participação política reformista e defensor de um partido centralizado, disciplinado e militarizado capaz de desencadear a revolução social.
O anarquismo também se consolidou, em diversos países, como resultado do afastamento da social-democracia da tradição revolucionária socialista. Mas foi o sindicalismo revolucionário, ou anarco-sindicalismo, uma concepção de organização autônoma, apartidária e baseada na ação direta dos trabalhadores, que iria permitir que o anarquismo se constituísse como uma alternativa organizativa aos partidos sociais-democratas.
Nascido um pouco de forma espontânea, como resposta às necessidades autorganizativas dos trabalahdores, este sindicalismo revolucionário foi teorizado por Fernand Pelloutier e Emille Pouget, espalhando-se rapidamente por todo o mundo. A partir desse modelo da CGT francesa e do seu principal documento, a Carta de Amiens de 1906, nasceriam as grandes confederações anarco-sindicalistas do mundo: a CNT espanhola, a CGT portuguesa, SAC sueca, a USI, italiana e, na América Latina, a FORA, argentina, a FORU, no uruguaia e a COB, brasileira.
No começo do século XX, o anarquismo tinha-se tornado uma poderosa força internacional, principalmente na Europa e na América Latina, mas também com núcleos ativos na Rússia, China, Coréia, Japão e Austrália. O nosso século nasceria, no entanto, sob o signo da mudança e da tragédia e a Primeira Guerra Mundial iria representar uma ruptura decisiva rumo à vitória de uma concepção autoritária de socialismo, por um lado e, por outro, o nascimento de novas formas de capitalismo. Pelo caminho ficariam milhões de mortos, inúmeras guerras e revoluções frustradas.
Ao longo das três primeiras décadas deste século o anarco-sindicalismo mostrou todo o seu potencial transformador, como estratégia capaz de gerar uma unidade prática de largos setores da sociedade contra o poder do Estado e do Capital. Apesar disso o anarco-sindicalismo não foi capaz de sobreviver às duas grandes ofensivas sofridas nessa época. Por um lado, o nascimento do socialismo real, que se apresentou como a alternativa social possível resultante do uso teórico do marxismo, uma forma superior de socialismo, e da aplicação de uma estratégia organizativa revolucionária, desenvolvida por Lenin, tendo por base o partido de vanguarda.
Por outro lado, o anarquismo foi confrontado com a integração gradual do sindicalismo à lógica do Estado e do Capital, através da institucionalização dos conflitos laborais e da sua resolução dentro do quadro da legalidade dominante. Esta mudança decisiva no caráter do sindicalismo realizou-se por duas vias distintas mas convergentes nos seus objetivos: a do corporativismo fascizante em Itália e Portugal, exemplos seguido na América Latina por Vargas e Perón, e a do Estado de Direito Social, que retirando do sindicalismo sua autonomia, condição do seu potencial revolucionário, o tornava um mero instrumento de reivindicação corporativo de melhorias econômicas, que eram, em último caso, indutoras de uma maior eficácia e produtividade do capitalismo


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Frases de Mikhail Bakunin

"O Estado, como já disse, é, pelo seu próprio princípio: um imenso cemitério onde vêm sacrificar-se, morrer e enterrar-se todas as manifestações da vida individual e local, todos os interesses parciais de cujo conjunto deriva a sociedade."
"A Liberdade do outro estende a minha ao infinito."
"A liberdade sem o socialismo, é o privilégio, a injustiça. O socialismo sem a liberdade é a escravidão e a brutalidade."
"Antes morrer em pé do que viver de joelhos."
"O Estado, como já disse, é, pelo seu próprio princípio um imenso cemitério onde vem sacrificar-se, morrer e enterrar-se todas as manifestações da vida individual e local, todos os interesses parciais, de cujo conjunto deriva a sociedade."
"A liberdade política, enquanto não existir igualdade social e econômica, será uma mentira."
"Em vista da liberdade, da dignidade e da prosperidade humanas, pensamos ter de retirar do céu os bens que ele roubou e queremos devolvê-los à terra. Eles, ao contrário, esforçando-se em cometer um último roubo religiosamente heróico, desejariam restituir ao céu, a este divino ladrão, tudo o que a humanidade tem de maior, de mais belo, de mais nobre. É a vez dos livre-pensadores pilharem o céu pela audaciosa impiedade de sua análise científica."
"Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencido de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas."
"Minha própria vida é um fragmento."
"A justiça humana substituirá a justiça divina."
"Três elementos ou três princípios fundamentais constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo ou individual:
1º) a animalidade humana;
2º) o pensamento;
3º) a revolta.
À primeira corresponde propriamente a economia social e privada; à segunda, a ciência; à terceira, a liberdade."
"A Bíblia, que é um livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo, quando o consideramos como uma das mais antigas manifestações da sabedoria e da fantasia humanas, exprime esta verdade, de maneira muito ingênua, em seu mito do pecado original. Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabavam de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus "vivo", seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência."
"O Estado é a força, e tem, antes de mais nada, o direito da força, o argumento triunfante do fuzil. Mas o homem é tão singularmente feito que este argumento, por mais eloqüente que pareça ser, não é mais suficiente com o passar do tempo. Para impor-lhe respeito, é-lhe absolutamente necessária uma sanção moral qualquer. E preciso, além do mais, que esta sanção seja simultaneamente tão simples e tão evidente que possa convencer as massas, que, após terem sido reduzidas pela força do Estado, devem ser lavadas ao reconhecimento moral de seu direito."
"Há somente dois meios de convencer as massas da bondade de uma instituição social qualquer. O primeiro, o único real, mas também o mais difícil de empregar - porque implica a abolição do Estado, isto é, a abolição da exploração politicamente organizada da maioria por uma minoria qualquer - seria a satisfação direta e completa das necessidades e das aspirações do povo, o que equivaleria à liqüidação da existência da classe burguesa e, mais uma vez, à abolição do Estado. E, pois, inútil falar disso. O outro meio, ao contrário, funesto somente ao povo, precioso ao bem-estar dos privilegiados burgueses, não é outro senão a religião. E a eterna miragem que leva as massas à procura dos tesouros divinos, enquanto que, muito mais astuta, a classe governante se contenta em dividir entre seus membros - muito desigualmente, por sinal, e dando cada vez mais àquele que mais possui - os miseráveis bens da terra e os despojos do povo, inclusive, naturalmente, a liberdade política e social deste."
"O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento."
"Se Deus é, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe."
"Quando a multidão, hoje calada, como o oceano, se levantar, e para morrer esteja pronta, a comuna se erguerá." (Palavras escritas na tumba de Mikhail Bakunin)
"Enquanto houver um amo ano céu, haverá um escravo na terra."
"O maior gênio científico, no momento em que se torna acadêmico, um sábio oficial, reconhecido, decai inevitavelmente e adormece. Perde sua espontaneidade, sua ousadia revolucionária, e a energia incômoda e selvagem que caracteriza a natureza dos maiores gênios, sempre chamada a destruir os mundos envelhecidos e a lançar os fundamentos dos novos mundos. Ganha sem dúvida em polidez, em sabedoria utilitária e prática, o que perde em força de pensamento. Numa palavra, ele se corrompe."
"Reconhecemos a autoridade absoluta da ciência, mas rejeitamos a infantibilidade e a universalidade do cientista. Em nossa igreja - que me seja permitido servir-me por um momento desta expressão que por sinal detesto: a igreja e o Estado são minhas duas ovelhas negras; em nossa igreja como na igreja protestante temos um chefe, um Cristo invisível, a ciência; e como os protestantes, até mais conseqüentes do que os protestantes, não queremos tolerar nem o papa, nem o concílio, nem conclaves de cardeais infalíveis, nem bispos, nem mesmo padres. Nosso Cristo se distingue do Cristo protestante no fato de este último ser um Cristo pessoal, enquanto o nosso é impessoal; o cristo cristão, já realizado num passado eterno, apresenta-se como um ser perfeito, enquanto a realização e a perfeição do nosso Cristo, a ciência, estão sempre no futuro: o que equivale a dizer que elas jamais se realizarão. Ao não reconhecer outra autoridade absoluta que não seja a da ciência absoluta, não comprometemos de forma alguma nossa liberdade. Entendo por ciência absoluta a ciência realmente universal, que reproduziria idealmente, em toda a sua extensão e em todos os seus detalhes inifinitos, o universo, o sistema ou a coordenação de todas as leis naturais, manifestas pelo desenvolvimento incessante dos mundos. É evidente que esta ciência, objeto sublime de todos os esforços do espírito humano, jamais se realizará em sua plenitude absoluta. Nosso Cristo permanecerá pois eternamente inacabado, o que deve enfraquecer muito o orgulho de seus representantes titulados entre nós. Contra este Deus, filho, em nome do qual eles pretendiam nos impor sua autoridade insolente e pedantesca, recorremos a Deus pai, que é o mundo real, a vida real, do qual ele é apenas a expressão muito imperfeita, e do qual somos os representantes imediatos, nós, seres reais, vivendo, trabalhando, combatendo, amando, aspirando, gozando e sofrendo."





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A Defesa de um Terrorista
O que vou dizer-lhes não é uma defesa. Não estou tentando escapar do castigo imposto pela sociedade que ataquei. Além do mais, só reconheço um tribunal capaz de julgar-me - eu próprio - e o veredicto de qualquer outro não tem nenhuma importância para mim. Desejo apenas dar-lhes uma explicação sobre os meus atos e dizer-lhes como fui levado a praticá-los.
Faz pouco tempo que me tornei um anarquista. Foi só na metade de 1891 que ingressei no movimento revolucionário. Até então, freqüentava ambientes inteiramente imbuídos da moral vigente. Tinha sido educado para respeitar e até mesmo amar os conceitos de pátria, família, autoridade e propriedade. Pois a verdade é que os professores desta geração moderna esquecem muitas vezes de uma coisa importante: que a vida, com suas lutas e derrotas, suas injustiças e iniqüidades, se encarrega de abrir indiscretamente os olhos daqueles que ainda ignoram a realidade.
Isso aconteceu comigo, assim como acontece como todo mundo. Disseram-me que a vida era fácil, que estava aberta a todas as pessoas inteligentes e cheias de entusiasmo; a experiência me ensinou que só os cínicos e os servis conseguiam bons lugares no banquete. Disseram-me que as instituições sociais baseavam- se na justiça e na igualdade; eu observava a minha volta e só via mentiras e falsidade. Cada dia que passava me fazia perder as ilusões. Por onde quer que andasse, testemunhava sempre a mesma coisa: a miséria de alguns e as alegrias de outros.
Não tardei a entender que as grandes palavras que haviam me ensinado a venerar - honra, dedicação, dever - eram apenas máscaras que escondiam a mais vergonhosa baixeza. O dono da fábrica, que amealhava uma fortuna colossal graças ao trabalho de operários que nada tinham, era um cavalheiro; os deputados e ministros, cujas mãos estavam sempre estendidas à espera do suborno, eram homens dedicados ao bem comum; o policial, que experimentava um novo tipo de rifle alvejando crianças de sete anos, cumprira seu dever e era cumprimentado publicamente no parlamento pelo presidente do conselho. Tudo isso me enojava e minha inteligência foi aos poucos atraída pelas críticas feitas a organização social vigente. Essas críticas já foram tantas vezes repetidas que não vale a pena voltar a fazê-lo. Basta apenas dizer que logo me tornei um inimigo de uma sociedade que eu julgava criminosa.
Atraído, no início, pelo socialismo não tardei a afastar-me deste partido. Amo demais a liberdade, tenho demasiado respeito pela iniciativa privada e demasiada repulsa pela organização militar para que pudesse me tornar apenas mais um número no exército ordenado do quarto estado. Além disso, cedo que o socialismo não chegava a modificar a ordem estabelecida pois mantinha o conceito da autoridade - e seja qual for a idéia que os livres pensadores autodidatas possam ter a respeito - tal conceito representa a sobrevivência de uma crença antiquada num poder superior.
Estudos científicos me fizeram ir percebendo o papel que as forças naturais desempenham no universo. Tornei-me materialista e ateu: entendi que a moderna ciência rejeita a hipótese da existência de Deus porque não precisa dele. Da mesma maneira, a moral religiosa e autoritária baseada em falsas premissas, também deveria desaparecer.
Perguntava a mim mesmo como harmonizar essa nova moral com as leis da natureza, capazes de regenerar o velho mundo, para que fosse possível tornar a humanidade mais feliz. Foi nesse momento que entrei em contato com um grupo de camaradas anarquistas que ainda hoje considero entre os melhores que já conheci. O caráter desses homens me cativou de imediato. Percebi neles uma grande sinceridade, uma franqueza total, uma vigorosa desconfiança de todos os preconceitos e quis entender as idéias capazes de produzir homens tão diferentes daqueles que eu até então conhecera. Essas idéias, tal como consegui entendê-las, encontraram em minha mente um solo totalmente preparado - graças a observações e reflexões pessoais - para recebê-las. Elas vieram apenas dar objetividade ao que já existia de forma vaga e indecisa. E, por minha vez, eu também me tornei um anarquista.
Não é necessário que eu desenvolva aqui toda a teoria dos anarquistas. Desejo apenas salientar seu lado revolucionário e os aspectos negativos e destrutivos que me trouxeram a sua presença. Neste momento de amargo e acirrado combate entre a classe média e seus inimigos, sou quase tentado a dizer, como Souvarine em Germinal: "Todas as discussões sobre o futuro são criminosas, já que impedem a destruição pura e simples e retardam a marcha da revolução".
Como contribuição pessoal à luta, eu trouxe um ódio profundo e renovado a cada dia pelo espetáculo desta sociedade onde tudo é baixo, equívoco e feio; onde tudo serve de impedimento ao fluxo das paixões humanas, aos impulsos generosos do coração, ao vôo livre do pensamento. Desejava golpeá-la com tanta força e tanta justiça quanto fosse possível. Comecemos com a primeira tentativa, a explosão na Rue des Carmaux.
As primeiras notícias sobre a greve me encheram de alegria. Os mineiros pareciam enfim ter abandonado as inúteis greves pacíficas, nas quais o operário confiante espera pacientemente que seus poucos francos triunfem sobre os milhões da companhia. Pareciam ter finalmente escolhido o caminho da violência, que se manifestou decididamente no dia 15 de agosto de 1892. Os escritórios e prédios da mina foram invadidos por uma multidão de gente cansada de sofrer sem protestar; revoltados, os operários estavam prestes a justiçar o odiado engenheiro quando os mais medrosos decidiram interferir.
E quem eram esses homens?
Os mesmos que fazem abortar todos os movimentos revolucionários porque temem que, uma vez livre, o povo não obedecerá mais ao seu comando. Os mesmos que convencem milhares de homens a suportar privações mês após mês para que, ao protestar contra essas privações, possam criar para si uma popularidade capaz de fazer com que se elejam. Tais homens - falo nos líderes socialistas que assumiram de fato a liderança do movimento grevista. Imediatamente surgiu na região, uma nuvem de cavalheiros loquazes que se colocavam inteiramente à disposição dos operários, para organizar listas para arrecadação de fundos, arranjar conferências e buscar em todos os lugares possíveis.
Os mineiros entregaram a eles toda a organização do movimento e todos sabem o que aconteceu. A greve continuou, estendeu-se durante dias e os mineiros estabeleceram relações muito íntimas com a fome, que se tornou sua mais fiel companheira. Logo esgotaram a pequena reserva de fundos de seu próprio sindicato e das outras organizações que tinham vindo em seu auxílio então, ao fim do segundo mês de greve, cabisbaixos e humilhados, voltaram aos poços da mina mais miseráveis do que nunca.
Teria sido tão simples no começo atacar a companhia no seu único ponto sensível - o financeiro - queimando os estoques de carvão, destruindo as máquinas e as bombas de recalque das minas. Se tivessem feito isso, a companhia certamente não tardaria a capitular. Mas os grandes pontífices do socialismo não permitiram a utilização destes métodos por serem típicos do anarquismo. Ao lançar mão deles estamos arriscados a levar um tiro e até quem sabe, a receber uma daquelas balas que deram resultados tão miraculosos em Fourmies. Esta não é, certamente, a melhor maneira de ganhar um lugar na câmara municipal ou na assembléia legislativa. Em resumo, após uma interrupção momentânea, a ordem voltou a reinar em Carmaux, uma vez eliminados alguns problemas passageiros. Mais poderosa do que nunca, a Companhia continuou a explorar o povo, e os cavalheiros acionistas cumprimentaram-se pelo feliz desfecho da greve, sentindo um redobrado prazer ao receber seus dividendos.
Foi então que decidi introduzir naquele concerto de sons tão alegres, uma voz que os burgueses já conheciam, mas que julgavam ter morrido em Ravachol: a voz da dinamite. Queria mostrar à burguesia que, partir daquele momento, seus prazeres já não seriam tão completos, que as vitórias insolentes seriam perturbadas, que o bezerro de ouro balançaria violentamente no pedestal até o golpe final, que o faria rolar em meio ao sangue e à imundice. Ao mesmo tempo, desejava fazer com que os mineiros entendessem que só há um tipo de homem capaz de se preocupar sinceramente com os seus sofrimentos e dispostos a vingá-los: os anarquistas.
Tais homens não ficam sentados no parlamento como o Sr. Guesde e seus associados, mas, marcham até a guilhotina. Assim, preparei uma bomba. Num certo momento, lembrei-me da acusação que havia sido feita em Ravachol. E as vítimas inocentes? Mas logo resolvi esse problema. Os edifícios onde a Companhia Carmoux mantinha seus escritórios eram habitados apenas por burgueses: não haveria, portanto, vítimas inocentes.
Todos os burgueses vivem da exploração dos menos afortunados e justos e deveriam pagar pelo seu crime. Assim, foi com a mais absoluta confiança na legitimidade do meu ato que deixei a bomba diante da porta dos escritórios da Companhia. Já falei aqui sobre a minha esperança de que, caso fosse descoberta antes de explodir, minha bomba acabaria por detonar na delegacia, onde aqueles que por acaso viessem a sofrer ferimentos também seriam inimigos. Tais foram os motivos que me levaram a cometer o primeiro atentado de que sou acusado.
Vejamos o segundo: o incidente no Café Terminus.
Eu acabara de voltar a Paris na época do caso Vallant e fora testemunha da terrível repressão que se seguiu à explosão no Palácio Bourbon. Vi as medidas draconianas que o governo decidiu tomar contra os anarquistas. Havia espiões, buscas e prisões por toda a parte. Um grupo de indivíduos detidos indiscriminadamente, arrancados de seus lares e jogados nas prisões. Ninguém se preocupou em saber o que aconteceria às suas esposas e filhos enquanto esses camaradas permanecessem confinados.
O anarquista já não era mais considerado um ser humano, mas uma besta selvagem que devia ser caçada sem tréguas enquanto a imprensa burguesa, escrava da autoridade, exigia em altas vozes que todos eles fossem eliminados. Ao mesmo tempo, panfletos e papéis libertários eram confiscados e aboliu-se o direito de reunião. Pior do que isso: quando parecia aconselhável livrar-se de um camarada, um informante deixava no seu quarto um pacote que, segundo ele, continha tanino; no dia seguinte procedia-se a uma busca com um mandato datado do dia anterior e encontrava-se uma caixa com um pó suspeito. O camarada era então levado a julgamento e condenado a 3 anos de prisão.
Se quiserem saber se o que digo é verdade, perguntem ao espião miserável que conseguiu penetrar na casa do camarada Merigeaud!
Mas tais métodos eram válidos pois atacavam um inimigo que havia espalhado o medo, e todos aqueles que tinham tremido de pavor queriam agora demonstrar coragem. Como coroamento dessa cruzada contra os heréticos, ouvimos o Ministro do Interior, Sr. Reynal, declarar na Câmara dos Deputados que as medidas tomadas pelo governo tinham implantado o terror entre os anarquistas. Mas isso ainda não era suficiente: um homem que nunca havia matado ninguém foi condenado à morte.
Era necessário mostrar bravura até o fim, e numa bela manhã ele foi guilhotinado. Mas, senhores da burguesia, ao fazer tais planos, vocês esqueceram do principal, prenderam centenas de homens e mulheres, violaram dezenas de lares, mas, fora dos muros da prisão, ainda restavam homens que vocês desconheciam e que observavam, escondidos nas sobras enquanto vocês caçavam anarquistas, esperando apenas o momento propício para que eles, por sua vez, pudessem caçar os caçadores.
As palavras de Reynal eram um desafio arremessado aos anarquistas. O desafio foi aceito. A bomba encontrada no Café Terminus é a resposta a todas as violações à liberdade, às prisões, às buscas, às leis contra a imprensa, às deportações em massa, às guilhotinas. Mas - perguntarão vocês - por que atacar os pacíficos clientes de um café que estavam apenas sentados ouvindo música e que, não eram nem juizes, nem deputados, nem burocratas?
Por quê? É muito simples.
Os burgueses não faziam distinções entre os anarquistas. Vailant, um homem que agia sozinho, jogou uma bomba; mais da metade de seus camaradas nem ao menos o conhecia mas isso não teve nenhuma importância; era uma perseguição em massa e qualquer pessoa que tivesse ligações com os anarquistas, por menor que fossem, deveria ser caçada. E já que vocês responsabilizam todo um partido pelas ações de um só homem e atacam indiscriminadamente, nós também atacaremos sem escolher as vítimas.
Acham talvez que devêssemos atacar somente os deputados que fazem as leis contra nós, os juizes que aplicam essas leis, à polícia que nos prende? Não concordo.
Tais homens são apenas instrumentos. Não agem em seu próprio nome. Suas funções foram criadas pela burguesia como uma forma de defesa. Não são mais culpados que qualquer um de vocês. Esses bons burgueses que não tem qualquer cargo público, mas que colhem seus dividendos e vivem ociosamente graças aos lucros obtidos com o trabalho árduo dos operários, eles também devem sofrer a sua quota de vingança!
E não só eles, mas todos aqueles que concordam com a ordem vigente, que aplaudem os atos do governo e assim se tornam seus cúmplices; os funcionários que ganham três ou cinco mil francos por mês e que odeiam o povo com fúria ainda maior que a dos ricos, aquela massa estúpida e pretensiosa de gente que sempre escolhe o lado mais forte - em outras palavras, a clientela diária do Terminus e de outros grandes cafés!
Foi por esta razão que ataquei ao acaso e não escolhi as minhas vítimas. Devemos fazer com que a burguesia entenda que aqueles que sofrem estão enfim cansados de sofrer. Começam a mostrar os dentes e quando atacarem serão tanto mais brutais quanto tiver sido a brutalidade usada contra eles. Eles não têm nenhum respeito pela vida humana porque os próprios burgueses já demonstraram que não se preocupam com ela. Não cabe aos assassinos responsáveis por aquela semana sangrenta e por Fourmies considerar que os outros são os assassinos.
Não pouparemos as mulheres e crianças burguesas porque as mulheres e crianças daqueles que amamos também não foram poupadas. Não deveríamos incluir entre as vítimas inocentes, as crianças que morrem lentamente de anemia nos cortiços porque não há pão em suas casas?
As mulheres que vão se tornando cada vez mais pálidas trabalhando nas fábricas, esfalfando-se para ganhar alguns tostões por dia e podendo se considerar felizes se a pobreza não as levar à prostituição?
Ou os velhos que foram tratados como máquinas durante toda a vida e que agora são lançados ao monte de refugos nos asilos, quando já não têm mais forças para trabalhar?
Tenham ao menos a coragem de assumir seus crimes, cavalheiros da burguesia, e reconheçam que nossas represálias são totalmente válidas. É claro que não tenho ilusões. Sei que as massas ainda não estão preparadas para entender meus atos. Mesmo entre os operários pelos quais lutei, muitos ainda serão enganados pelos jornais e me condenarão como a um inimigo. Mas isso não importa. Não estou preocupado com o que os outros pensam de mim. Nem ignoro o fato de que há muitos indivíduos que se dizem anarquistas mas que se apressam a negar solidariedade aos que pretendem difundir a ação.
Eles procuram estabelecer uma diferença sutil entre os teóricos e os terroristas. Demasiado covardes para arriscar a própria vida, negam aqueles que têm esta coragem. Mas a influência que pretendem exercer sobre o movimento revolucionário é absolutamente nenhuma. Hoje o campo está aberto à ação, sem fraquezas ou desistências.
Certa vez Alexander Herzen, o revolucionário russo, disse: "devemos escolher entre duas coisas: condenar e marchar para frente ou perdoar e dar meia volta no meio do caminho".
Não pretendermos nem perdoar, nem voltar atrás e marcharemos sempre para a frente, avançando até que a revolução, objetivo final de todos os nossos esforços, finalmente aconteça para coroar nosso trabalho com a criação de um mundo livre.
Nessa guerra sem piedade que declaramos contra a burguesia, não queremos que ninguém tenha pena de nós. Matamos e sabemos suportar a morte. É portanto com indiferença que aguardo a sentença. Sei que minha cabeça não será a última que vocês cortarão: outras ainda irão rolar, porque os que morrem de fome começam a aprender os caminhos que levam aos cafés e aos restaurantes, aos Terminus e Foyots.
Outros nomes serão acrescentados à lista sangrenta dos nossos mortos. Vocês podem ter enforcado em Chicago, decapitado na Alemanha, garroteado em Jerez, fuzilado em Barcelona, guilhotinado em Montbrison e Paris, mas nunca conseguirão acabar com o anarquismo.
Suas raízes são demasiado profundas, ele nasceu no coração de uma sociedade que está apodrecendo e se desintegrando. Representa todas as aspirações libertárias e igualitárias que se levantam contra a autoridade. Está em toda a parte, o que faz que seja impossível controlá-lo. Acabará por matá-los a todos!
By Emile Henry, in A Gazeta dos tribunais, 27-8 abril,1894.



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ZAPATISTAS, O QUE PENSAM E O QUE QUEREM
"No México existem dois projetos de Nação... O primeiro, o do Poder... O outro projeto... o do movimento"
Mesmo debaixo da feroz agressão do Governo Mexicano e indiretamente dos Estados Unidos, a luta do Exército Zapatista prossegue com notável força moral e espiritual, obtendo apoio não apenas na comunidade mexicana, mas principalmente de todo mundo. Tanto que há quem considere que se existe hoje uma fagulha de esperança para os pobres e marginalizados, não apenas de Chiapas, mas também de todo o mundo, essa fagulha brilhou em 31 de dezembro de 1996, na insurreição Zapatista.
Pela Frente Zapatista de Libertação Nacional Desde o Rio Bravo ao Norte e o Suchiate ao Sudeste, em meio aos dois oceanos, na cidade e no campo, recuperando o passado para lutar no presente por um futuro melhor, falando com os que nada falam e escutando aos que nada escutam, levantando a rebeldia como bandeira, vivendo a dignidade como projeto de vida, e
CONSIDERANDO...
Primeiro.- Que no México existem dois projetos de Nação que lutam entre si para definir o futuro de nosso país:
O primeiro, o do Poder, é o da imobilidade. Implica na destruição da Nação mexicana, nega nossa história e raízes, vende nossa soberania, faz da traição e do crime os fundamentos da moderna política, e da simulação e da mentira, trampolins de êxito político, impõe um programa econômico que só consegue prosperar na desestabilização e na insegurança de todos os cidadãos e cidadãs, e utiliza a repressão e a intolerância como argumentos de governo.
O outro projeto, o dos mexicanos e mexicanas do povo com ou sem organização, é o do movimento. Implica na reconstrução da Nação mexicana da única forma possível, a saber, de baixo para cima; recuperar a história e a raiz de nosso povo; defender a soberania; lutar por uma transição à democracia que não simule uma mudança mas que seja um projeto de reconstrução do país; lutar por um país que tenha a verdade e o mandar obedecendo como norma do que fazer político; lutar para que a democracia, a liberdade e a justiça sejam patrimônio nacional, lutar para que o diálogo, a tolerância e a inclusão construam uma nova forma de fazer política.
Segundo.- Que a vida política de nosso país vá além da que nos é imposta pelo Estado Mexicano que exclui a imensa maioria do povo; e que a luta por manter o Poder ou por tomá-lo tem definido uma forma de fazer política que deixa grandes cicatrizes na vida política nacional.
Terceiro.- Que o levante Zapatista de 1994 não só evidenciou a crise dentro do sistema de partido de Estado e o esquecimento ao que se pretendia condenar aos indígenas mexicanos, mas que também mostrou a necessidade e possibilidade de uma nova forma de fazer política, sem aspirar à tomada do Poder e sem posições vanguardistas, ademais que reconheceu e estabeleceu pontes com um movimento civil e pacífico, não partidário e heterogêneo, emergente: a sociedade civil.
Quarto.- Que a sociedade civil, organizada ou espontaneamente tem ocupado os grandes vazios que deixam os partidos políticos e, nos últimos anos de forma mais importantes, tem conseguido as vitórias políticas mais significativas do México moderno, que se converteu, com o acompanhamento de algumas forças políticas, na principal impulsora da transição à democracia e na construtora essencial de uma nova sociedade plural, tolerante, incluente, democrática, justa e livre, que só é possível hoje em uma Pátria nova.
Quinto.- Que a transição real à democracia é a única esperança de que os cidadãos e cidadãs, todos e todas, recuperem seu direito de fazer valer o artigo 39 da Carta Magna, onde está escrito que: A soberania reside essencial e originariamente no povo. Todo poder público emana do povo e se institui para benefício deste. O povo tem todo o tempo o inalienável direito de alterar ou modificar a forma de seu governo, e que este direito é a base para a construção de um novo país.
Sexto.- Que a construção do projeto de uma Nova Pátria é um processo cuja condução não corresponde uma força hegemônica ou a um indivíduo, mas a um amplo movimento nacional, popular e democrático.
Sétimo.- Que é necessária uma força política que não lute pela tomada de Poder nem com os velhos métodos de fazer política, mas que lute por criar, somar, promover e fortalecer os movimentos de cidadania e populares, sem tratar de absorvê-los, dirigi-los ou utilizá-los; uma força política cuja luta não é eleitoral mas que reconhece que o terreno eleitoral se tem convertido em um espaço de ação de cidadania válida e necessária, e que é indispensável a luta por ampliá-la e democratizá-la; uma força política que some sua luta com a de outras forças para lograr a transformação democrática real; uma força política que com sua prática contribua para a construção de uma nova forma de fazer política; uma força política que lute para que o que fazer político seja um espaço de cidadania, que não use aos cidadãos e cidadãs, mas que seja veículo e pretexto para o movimento social e político; uma força política que não olhe de cima em seu caminho e aspirações, mas que se dirija aos lados em suas palavras, ouvidos e esforços; uma força política que sempre levante a bandeira da dignidade rebelde onde quer que se encontre.
PORTANTO
É necessário pensar em novas formas de relação entre a organização política e o conjunto da sociedade. Novas formas de relação onde a ética e a política não sejam inimigas.
É necessário que no movimento e organização política não só não se contraponham, mas que a una um a serviço do outro.
É necessário o diálogo com e entre os espaços de participação e os movimentos, a capacidade de convocar uns aos outros, de promover ações conjuntas, e de somar e somar-se a suas iniciativas.
É necessário um espaço de participação que, perante os movimentos e com eles, possa organizar a demanda e a satisfação dos direitos populares, possa organizar a resistência e o desenvolvimento de formas sociais de autogestão, possa reconhecer a aparição de novos atores sociais e acompanhar suas mobilizações, possa organizar e promover a vigilância dos cidadãos sobre os governantes, e possa criar novos espaços de mobilização.
É necessário que o espaço de participação política tenha movimento interior para não congelar as idéias como verdades inamovíveis, mas que os pensamentos estejam em uma contínua confrontação com a realidade, e que o espaço de participação gere um pensamento crítico desde o Poder até a si mesmo.
É necessário que o espaço de participação tenha lugar para a voz de todas e todos os que nele se encontram.
É necessário que o espaço de participação faça da construção coletiva seu interesse principal.
Por tudo isso, por tratar de ocupar um espaço vazio e não para competir com outros, por tratar de aportar algo novo e não para disputar o monopólio do velho, para tratar de somar e não de dividir, para tratar de construir e não de destruir, para tratar de convencer e não de vencer, para tratar de acompanhar e não de dirigir, para tratar de incluir e não de excluir, para tratar de representar e não de suplantar, para tratar de propor e não de impor, para tratar de servir e não de servir-se, é que um grupo de mexicanos e mexicanas, respondendo à convocatória feita pelo EZLN em sua IV Declaração da Selva Lacandona, nos propomos construir a Frente Zapatista de Libertação Nacional segundo a seguinte...


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DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS.
A Frente Zapatista de Libertação Nacional adota os seguintes princípios que definem sua identidade social e política:
1.- A Frente Zapatista de Libertação Nacional é uma organização política mexicana, presente em todo o território nacional, que recorre a formas de luta civis e pacíficas para fazer realidade em nosso país uma sociedade livre, justa, democrática e participativa, aberta a todas as correntes de pensamento, plural em sua composição cultural e étnica, incluindo respeito a todo tipo de minorias e justa em sua ordem econômica e social. Para isso a FZLN se sustenta em raízes étnicas, culturais e históricas que formam a nação mexicana para fortalecer nossa identidade como povos e enriquecer nosso caráter pluricultural, e recolhe a tradição de luta que tem desenvolvido nosso povo, ao longo de mais de 500 anos, por libertar-se dos diferentes tipos de dominação que tem padecido. A FZLN reivindica a luta pela dignidade que tem sustentado nosso povo ao longo de sua história e busca com sua ação, tanto interna quanto externamente, ser congruente consigo mesma.
2.- A Frente Zapatista de Libertação Nacional se declara independente ideológica, política e economicamente dos partidos políticos, das igrejas, do Estado Mexicano e de qualquer outro Estado no mundo.
3.- A Frente Zapatista de Libertação Nacional com o caráter incluente que possui, porque sabe que seu objetivo não pode ser obra de uma só força sem o labor coletivo, reconhece que é necessário promover e participar em um amplo movimento nacional de onde confluam outras forças políticas de oposição independentes e cuja tarefa é a transformação do México em um país com democracia, liberdade e justiça para todos. É por isso que a busca da unidade, mediante o diálogo e ações conjuntas, entre todas as forças que lutam por este novo México, assim como a busca pela integração das diversas formas de luta pacíficas e civis, será uma atitude permanente dentro das atividades que realiza a FZLN.
4. - A Frente Zapatista de Libertação Nacional não aspira à tomada do Poder. Sua razão de ser é a construção de estruturas organizativas no seio do povo para que este possa tomar coletivamente as decisões políticas que respondam a seus interesses e exerça sua soberania sobre o desenvolvimento econômico, político e social. A FZLN lutará sempre contra toda forma de exploração, discriminação e opressão econômica, social, ideológica e cultural, para construir uma sociedade em que todos os mexicanos vivamos em condições justas e dignas.
5. - A Frente Zapatista de Libertação Nacional assume como princípio fundamental o de "mandar obedecendo", que se opõe à relação mando/obediência que vem desde o Poder e que busca permear toda sociedade. A FZLN propõe a toda a nação adotar este princípio como base de todas as relações sociais e políticas no México, buscando sempre que nas relações sociais pese mais a busca do interesse coletivo sobre os interesse pessoais. De tal forma que, como complemento a este princípio, em todas as atividades organizativas que requeiram um trabalho de coordenação, os membros da FZLN funcionarão sobre a lógica do coordenar respeitando.
6. - A Frente Zapatista de Libertação Nacional assume o princípio de "para todos tudo, nada para nós", por seu profundo conteúdo comunitário e porque reflete a decisão de seus militantes de não buscar o benefício individual, sectário ou partidarista no desenvolvimento da luta, mas de lutar pelo bem estar coletivo.
7. - A Frente Zapatista de Libertação Nacional sabe que sua luta é parte do novo movimento internacional que se opõe ao neoliberalismo e se propõe contribuir nesta grande batalha, desde seu país, para a vitória de todos os povos do planeta em favor da humanidade e contra o neoliberalismo, a construção de um mundo onde caibam muitos mundos.
PROGRAMA DE LUTA DA FZLN
CONSIDERANDO QUE...
O programa da FZLN deve refletir que somos uma força política que não busca a tomada do poder, que não pretende ser a vanguarda de uma classe específica, ou da sociedade em seu conjunto.
O programa de uma força política de novo tipo deve recolher o conjunto de demandas dos diversos atores sociais e de cidadania, os direitos individuais e comunitários; não a partir de uma perspectiva acadêmica, mas a partir da participação ativa e consciente dentro do movimento social em luta, tratando que a sociedade, a começar pelo cidadão, se aproprie da política.
O programa de luta deve considerar que a soberania popular se cria com a força autônoma do povo com respeito ao Estado, com programas próprios decididos pela maioria, com projetos de desenvolvimento legitimados não pela institucionalidade, mas pela participação e auto criação popular.
O programa se vai construindo ao lado da democracia participativa, desde a auto-organização do povo, garantindo seu protagonismo com o desenvolvimento da iniciativa e a criatividade popular. Buscamos que nosso programa seja uma ferramenta útil, mas flexível, que permita mirarmos no espelho da sociedade.
PORTANTO PROPOMOS
agrupar em seis eixos programáticos as 13 demandas fundamentais do EZLN: Trabalho, Teto, Terra, Alimentação, Saúde, Educação, Independência, Democracia, Justiça, Liberdade, Cultura, Direito à Informação e Paz, junto com as outras três que se agregaram durante a Consulta aos Cidadãos de agosto de 1995: Segurança, Combate à Corrupção e Defesa do Meio Ambiente; e o conjunto de propostas elaboradas durante o Congresso de Fundação da FZLN.



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A INSTRUÇÃO INTEGRAL por Mikhail Bakunin
A primeira questão que temos de considerar hoje é esta: Poderá ser completa a emancipação das massas operárias enquanto recebam uma instrução inferior à dos burgueses ou enquanto haja, em geral, uma classe qualquer, numerosa ou não, mas que por nascimento tenha os privilégios de uma educação superior e mais completa? Propor esta questão não é começar a resolvê-la Não é evidente que entre dois homens dotados de uma inteligência natural mais ou menos igual, o que for mais instruído, cujo conhecimento se tenha ampliado pela ciência e que compreendendo melhor o encadeamento dos factos naturais e sociais, compreenderá com mais facilidade e mais amplamente o carácter do meio em que se encontra, que se sentirá mais livre, que será mais hábil e forte que o outro Quem souber mais dominará naturalmente a quem menos sabe e não existindo em princípio entre duas classes sociais mais que esta só diferença de instrução e de educação, essa diferença produzirá em pouco tempo todas as demais e o mundo voltará a encontrar-se em sua situação actual, isto é, dividido numa massa de escravos e num pequeno número de dominadores, os primeiros trabalhando, como hoje em dia, para os segundos.
Entende-se agora porque os socialistas burgueses não pedem mais que 'instrução' para o povo, um pouco mais que agora, e porque nós, democratas socialistas, pedimos para o povo 'instrução integral', toda a instrução, tão completa quanto requer a força intelectual do século, a fim de que por cima da classe operária não haja de agora em diante nenhuma classe que possa saber mais e que precisamente por isto possa explorá-la e dominá-la. Os socialistas burgueses querem a manutenção das classes, pois cada uma deve, segundo eles, representar uma função social diferente. Eles queriam, conservando-as, aliviar, minorar e dissimular as bases históricas da sociedade actual, a desigualdade e a injustiça, que nós queremos destruir. Do que resulta que entre os socialistas burgueses e nós não é possível acordo, conciliação nem coalizão alguma. Mas, se dirá - e este é o princípio a que se nos opõe e que os senhores doutrinários de todas as cores consideram irresistível - que é impossível que a humanidade inteira se dedique à ciência: morreria de fome. É preciso, portanto, que enquanto uns estudam, outros trabalhem para produzir os objectos necessários para viverem em primeiro lugar e depois para os homens que se dedicam exclusivamente a trabalhos intelectuais; pois estes homens não trabalham só para eles: seus descobrimentos científicos, além de ampliar o conhecimento humano, não melhoram a condição de todos os seres humanos, sem excepções, ao aplicá-los na indústria e na agricultura e, em geral, na vida política e social? Suas criações artísticas, não enobrecem a vida de todo mundo? Mas não. Não de todo mundo. E o repúdio maior que teríamos que dirigir à ciência e às artes é precisamente não estender seus benefícios e não exercer sua influência útil mais que sobre uma mínima parte da sociedade, excluindo e por conseguinte prejudicando a imensa maioria.
Hoje pode-se afirmar acerca do progresso da ciência e das artes o que se diz, e com razão, nos países mais civilizados do mundo, acerca do prodigioso desenvolvimento da indústria, do comércio, do crédito, da riqueza social, em uma palavra. Esta riqueza é totalmente exclusiva e tende a ser cada dia mais, ao concentrar-se sempre em mãos de uns poucos e lançar a pequena burguesia, as capas inferiores da classe média, em direcção ao proletariado, de maneira que o desenvolvimento e o progresso está em razão directa com a miséria crescente das massas operárias. Assim resulta que se abre cada dia mais o abismo que separa a minoria feliz e privilegiada dos milhões de trabalhadores que vivem com o trabalho de suas mãos, e que enquanto mais felizes são os felizes exploradores do trabalho popular, mais infortunados são os trabalhadores. Que se recorde, frente a fabulosa opulência do grande mundo aristocrático, financeiro, comercial e industrial da Inglaterra, a situação miserável dos operários deste mesmo país. Que se leia e releia a carta, tão ingénua e dilaceradora, escrita faz pouco tempo por um inteligente e honesto ourives em Londres, Walter Dugan, que se envenenou 'voluntariamente' com sua mulher e seus filhos para escapar às humilhações da miséria e as torturas da fome; então haverá que confessar que esta civilização tão glorificada não significa, desde o ponto de vista material, mais que opressão e ruína para o povo. E o mesmo ocorre com os modernos avanços da ciência e das artes. São imensos estes progressos, é verdade.
Mas, quanto mais extraordinários são, mais se convertem em causas de escravidão intelectual e, portanto, material; origem de miséria e inferioridade para o povo, pois também elas alargam a distância que já separa a inteligência popular da das classes privilegiadas. A primeira, desde o ponto de vista da capacidade natural, está hoje evidentemente menos usada, menos sofisticada e menos corrompida pela necessidade de defender interesses injustos e é, por conseguinte, mais forte que a inteligência burguesa; mas, por outro lado, esta última possui todas as armas da ciência e estas armas são formidáveis. Sucede a princípio que um operário muito inteligente se vê obrigado a emudecer ante um erudito tonto, que lhe faz calar não por maior finura de espírito, da qual carece, mas por instrução, da qual o operário é privado e que o outro pôde receber, pois enquanto sua estupidez se desenvolvia cientificamente nas escolas, o trabalho do operário lhe vestia, lhe dava casa, o alimentava e lhe proporcionava tudo, os professores e os livros necessários a sua instrução.



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