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Desde: 08/09/2003      Publicadas: 52      Atualização: 11/10/2005

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 ANARQUIA!

  20/01/2004
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ANARQUISMO e ORGANIZAÇÃO

por Errico Malatesta

"Entre aqueles que se dizem anarquistas com diferentes adjetivos ou sem adjetivos, há duas facções: os partidários e os adversários da organização. Se não pudermos chegar a um acordo, procuremos ao menos nos entender.

E, antes de tudo o problema sendo triplo, distingamos: a organização em geral, princípio e condição da vida social, hoje e na sociedade futura; a organização do "partido anarquista"; e a organização das forças populares, em particular a das massas operárias, em vista da resistência contra o governo e contra o capitalismo. O erro fundamental dos anarquistas que se opõem à organização é de crer que não pode haver organização sem autoridade - e, convencidos desta hipótese, preferem renunciar a toda organização do que admitir a mínima autoridade.

Ora, parece-nos evidente que a organização, isto é, a associação com uma finalidade determinada, sob a forma e com os meios para atingir esta finalidade, é necessária à vida social. O homem isolado não pode senão viver a vida de um bruto; é incapaz de providenciar sua alimentação, exceto nas regiões tropicais ou quando a população é extremamente limitada; e é sempre incapaz, sem nenhuma exceção, de elevar-se a uma vida um pouco superior a do animal. Deve, portanto unir-se a outros homens; ou melhor, ele se encontra unido a eles de fato, em conseqüência da evolução natural das espécies; é, pois, necessário a ele, ou submeter-se à vontade dos outros (autoridade), ou viver em acordo fraternal com os outros para o maior bem de todos (associação).

Ninguém pode escapar desta necessidade; e mesmo os maiores opositores à organização submetem-se à organização geral da sociedade na qual vivem; além disso, nos atos voluntários de suas vidas, e também em sua revolta contra a organização, eles se unem, repartem suas tarefas, organizam-se com os que estão de acordo com eles, e utilizam os meios que a sociedade põe à sua disposição...com a condição, naturalmente, de que não se trata apenas de vagas aspirações platônicas ou de sonhos sonhados, mas de algo que eles queiram verdadeiramente ou que eles façam verdadeiramente."

"O fato de que pode existir uma coletividade organizada sem autoridade, isto é, sem coerção, sendo admitido - e os anarquistas devem admiti-lo, senão o anarquismo não teria sentido -, nos leva à organização do partido anarquista. Um matemático, um químico, um psicólogo, um sociólogo podem afirmar que não têm programa, ou que seu único programa é a procura da verdade; eles querem conhecer, e não agir. Entretanto o anarquismo e o socialismo não são ciências: são objetivos, projetos que os anarquistas e os socialistas querem pôr em prática e que têm necessidade de ser formulados em programas bem determinados.

Se acontece da organização criar chefes, e se, portanto, acontece que os anarquistas sejam incapazes de reagruparem-se e de chegarem a um acordo entre si sem submeterem-se a uma autoridade isto significa que eles ainda não são bastante anarquistas e que antes de pensar em estabelecer a anarquia no mundo, devem pensar em tornar-se eles próprios, capazes de viver anarquicamente. Mas a solução não está na não-organização: ela está numa maior consciência de cada membro.

Nas pequenas sociedades como nas maiores, a origem e a justificativa da autoridade encontram-se na desorganização social, se excluímos a força bruta, que não intervém no caso que analisamos. Quando uma necessidade se faz sentir em uma sociedade e seus membros não sabem organizar-se espontaneamente para encontrar a solução, apresenta-se alguém, uma autoridade, que propõe uma solução servindo-se da força de todos e dirigindo-a conforme sua fantasia. Se as estradas não são seguras e o povo não encontra solução para este problema, é a polícia que, em troca de troca de algum serviço prestado faz-se suportar e

pagar impondo sua tirania; um produto torna-se necessário e a coletividade não sabe pôr-se de acordo com os produtores estrangeiros para fazê-los vir, é o comerciante que, aproveitando a necessidade de vender para uns e comprar para outros, impõe os preços que quer aos produtores e aos consumidores.

Basta ver o que sempre se passou entre nós: quanto menos organizados nos encontramos, mais submissos estivemos à vontade de um indivíduo. É natural que assim seja. Logo, longe de criar a autoridade, a organização é a única solução contra a autoridade e a única maneira de fazer com que cada um de nós se habitue a tomar parte ativa e consciente no trabalho coletivo e deixe de ser um instrumento passivo nas mãos dos chefes. Entretanto, nos dirão, uma organização supõe a obrigação de coordenar sua própria ação com a dos outros, o que viola e impede a iniciativa. Parece-nos que o que realmente priva a liberdade e torna a iniciativa impossível, é o isolamento que reduz à impotência. A liberdade não é um direito abstrato, mas a possibilidade de fazer alguma coisa: é verdade para nós e também para a sociedade em geral. É na cooperação com os outros homens que o homem encontra a razão de ser de sua atividade e de sua poder de iniciativa."

"Ficaríamos muito contentes se pudéssemos estar todos de acordo e unir todas as forças do anarquismo em um movimento forte, etc. É preferível estarmos desunidos que mal unidos. Mas gostaríamos de esperar que cada um una-se a seus companheiros e que não haja forças isoladas, isto é, perdidas."

"Houve anarquistas - e ainda os há, evidentemente - que, embora reconhecendo a necessidade de organizarem-se hoje para a propaganda e a ação, mostraram-se hostis a todas as organizações que não tinham como objetivo direto o anarquismo e não seguiam os métodos anarquistas. Parecia-lhes que todas as forças organizadas em prol de um objetivo, por mais radicais que fossem, eram forças que se furtavam à revolução. Parece-nos ao contrário, que este método condenaria o movimento anarquista a uma perpétua esterilidade, e a experiência nos dá ampla razão.

Para fazer propaganda, é preciso estar entre as pessoas, e é nas associações operárias que o operário encontra seus companheiros, em particular aqueles que estão mais dispostos a compreender e a aceitar nossas idéias. Mas, mesmo que pudéssemos fazer toda a propaganda que gostaríamos fora das associações, ela não poderia sensibilizar a massa operária. À exceção de um número muito limitado de indivíduos mais instruídos, capazes de reflexão abstrata e de entusiasmo teórico, o operário não pode chegar de repente ao anarquismo.

Sustentar as organizações populares de toda a espécie é uma conseqüência lógica de nossas idéias fundamentais e deveria, portanto, fazer parte integrante de nosso programa. Um partido autoritário cujo objetivo é tomar conta do poder para impor suas idéias está interessado em que o povo permaneça uma massa amorfa, incapaz de desemcumbir-se sozinha e, consequentemente, sempre fácil de dominar. Logo, ele só pode logicamente desejar o pouco de organização e o gênero de organização que o interessam para chegar ao poder: organização eleitoral, se espera chegar ao poder por vias legais, organização militar se conta, ao contrário, com uma ação violenta.

Contudo nós, anarquistas, não queremos emancipar o povo; queremos que o povo se emancipe. Não acreditamos no bem que seria praticado do alto e imposto pela força; queremos que a nova forma de vida social nasça das entranhas do povo, que corresponda ao grau de desenvolvimento atingido pelos homens e possa progredir à medida que os homens progridam. O que importa é que todos os interesses e todas as opiniões encontrem em um organização consciente a possibilidade de exprimir-se de modo válido e de ter sobre a vida coletiva uma influência em proporção de sua importância.

Demo-nos por tarefa lutar contra a organização social atual e demolir os obstáculos que se opõem à implantação de uma nova sociedade que assegure a todos a liberdade e o bem-estar. para atingir esse objetivo, unimo-nos em um partido e tentamos ser o mais numeroso e o mais forte possível. Mas se nosso partido estivesse organizado; se os trabalhadores devessem permanecer isolados como elementos indiferentes uns aos outros, unidos apenas pela mesma cadeia; se nós mesmos, organizados em partido enquanto anarquistas, não estivéssemos também organizados com os trabalhadores enquanto trabalhadores, não chegaríamos a nada, ou poderíamos apenas nos impor, mas então, não seria o triunfo do anarquismo, seria o nosso. E seria inútil proclamarmo-nos anarquistas, nada mais seríamos do que meros governantes, impotentes para fazer o bem, como todos os governantes."


(c) copyleft - todo o conteúdo desta página pode (e deve) ser reproduzido, a citação da fonte não é obrigatória, porém é uma forma de apoiar nosso trabalho
  Web site: www.anarquismo.org  Autor:   Malatesta


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