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Desde: 08/09/2003      Publicadas: 52      Atualização: 11/10/2005

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 ANARQUIA!

  21/02/2005
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O Operário e a Máquina

Escrito por: Ricardo Flores Magón em 1916...

O Operário e a Máquina "Maldita máquina!" pragueja o operário, suando gotas grossas, cansado e desanimado. "Maldita máquina, que me obrigas a seguir o teu ritmo infernal, como se eu também fosse feito de aço e movido por um motor! Odeio-te, instrumento de pesadelo, pois fazendo o trabalho de dez, vinte ou trinta operários, tiras-me o pão da boca - e condenas-me, assim como à minha mulher e meus filhos, a passar fome". A máquina geme sob os golpes do motor, parecendo assim partilhar a fadiga do seu companheiro de sangue e músculos. Todas as peças que a compõem estão em movimento, e nunca param. Algumas deslizam, outras sobressaltam. Estas oscilam, estas rodopiam, gotejando óleo negro, ganindo, trepidando, cansando a vista do escravo de carne e osso que tem de seguir cuidadosamente todos os movimentos delas e resistir ao embrutecimento que provoquem, para não deixar prender um dedo numa dessas engrenagens de aço, ou perder uma mão, um braço, ou a vida... "Máquinas infernais!" Deveriam desaparecer todas, sequazes do diabo! Belo trabalho que fazem! Em um dia, sem outra despesa que alguns baldes de carvão para alimentar o motor, despacham cada uma mais trabalho que um homem em um mês, de tal maneira que um trabalhador, que poderia ter trabalho para trinta dias, vê-lo reduzido a um só por vossa causa... nós a morrer deixa-te indiferente! Sem ti, vinte famílias de proletários teriam o pão quotidiano assegurado." As mil e umas peças da máquina estão em ação. Giram, deslizam em todos os sentidos, juntam-se e afastam-se, suam gorduras repugnantes, trepidam e ganem até a vertigem... a lúgubre máquina não deixa um instante de descanso. Respira ruidosamente como se fosse viva. Parece esperar qualquer momento de distração do escravo humano para morder-lhe um dedo, arrancar-lhe um braço - ou a vida... Através de um respiradouro, penetra uma pálida luz, carceral e sinistra. O próprio sol recusa-se a iluminar este antro de miséria, de angústia e de fadiga, onde se sacrificam laboriosas existências para o benefício de vidas estéreis. Ruídos de passos vêm do exterior - é o rebanho em marcha! Miasmas espreitam em cada canto da oficina. O operário tosse... tosse! A máquina geme... geme! "Fazem sete horas que estou ao teu lado e ainda tenho que agüentar três. Tenho vertigens, mas devo resistir. A cabeça pesa-me, mas cuidado com o menor momento de desatenção! Tenho de seguir todos os teus movimentos se não quero que os teus dentes de aço me mordam e que os teus dedos de ferro me encerrem... Mais três longas horas! As minhas orelhas zumbem, uma sede terrível devora-me, tenho febre, a minha cabeça vai rebentar." Sons felizes chegam de fora: são crianças que passam, travessas. Os risos delas, graciosos e inocentes, afastam por um instante a penumbra em volta, gera uma sensação de frescura tal como o canto de um pássaro num momento de abatimento. A emoção apodera-se do operário. Os próprios filhos dele também gorjeiam assim! É assim que riem! E, sempre a observar o movimento dos mecanismos, começa a pensar. O espírito vai ter com o fruto dos seus amores, que espera por ele em casa. Estremece com a idéia de as crianças dele terem também de vir estourar-se perante uma máquina na penumbra de uma oficina onde pululam os micróbios. "Maldita máquina! Odeio-te!" A máquina começa a trepidar com mais vigor, já não geme mais. De todos os seus tendões de ferro, de todas as suas vértebras de aço, dos dentes duros de suas engrenagens, das suas centenas de peças infatigáveis, sai um som rouco cheio de raiva que, traduzido em linguagem humana, significa: - Cala-te miserável! Pára de queixar-te, covarde! Eu não passo de uma máquina, movida por um motor, mas tu, tu tens um cérebro e não te revoltas, pobre diabo! Pára de lamentar-te sem fim, imbecil! É a tua covardia que é causa da tua desgraça, não eu. Apodera-te de mim, arranca-me das garras desse vampiro que te chupa o sangue, e trabalha para ti e os teus, cretino! Em si, as máquinas são uma bênção. Poupamos esforço ao homem, mas vocês trabalhadores são tão estúpidos que nos deixam nas mãos dos vossos carrascos, embora vocês próprios nos tenham construído. Como conceber maior estupidez? Cala-te e não pies nem uma palavra mais! Se não tens a coragem de romper as tuas correntes, então não te queixes! Vamos, são horas de sair. Foge daqui e pensa! Com as palavras salutares da máquina, associadas ao ar fresco da rua, surge a consciência à mente do operário. Sente um mundo desmoronar-se no seu espírito: o mundo dos preconceitos, dos interditos e do respeito da ordem estabelecida, das leis e das tradições, e, de punho levantado, exclama: - "Sou anarquista! Terra e liberdade!"
  Web site: www.anarquismo.org  Autor:   Ricardo Flores Magón


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